Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social · 2023 · Vol. 9(2): 1–20
Portuguese Journal of Behavioral and Social Research · e-ISSN 2183-4938
Departamento de Investigação & Desenvolvimento · Instituto Superior Miguel Torga

Artigo Original

Fenômeno do impostor em universitários: Contribuições de variáveis demográficas e da personalidadeImpostor phenomenon in university students: Contributions of demographic and personality variables

Paulo Gregório Nascimento da Silva 1  ·  Gleyde Raiane de Araújo 2  ·  Laís Renata Lopes da Cunha 3  ·  Paloma Cavalcante Bezerra de Medeiros 3  ·  Ana Carolina Martins Monteiro Silva 3  ·  Maria Carolina de Carvalho Sousa 3  ·  Ramnsés Silva e Araújo 3  ·  Emerson Diógenes de Medeiros 3

1 Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Departamento de Psicologia, Brasil

2 Centro Universitário Inta (UNINTA), Faculdade Ieducare (FIED), Departamento de Psicologia, Brasil

3 Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Departamento de Psicologia, Brasil

* Artigo escrito em português do Brasil.

Recebido: 23/07/2023  ·  Revisto: 05/10/2023  ·  Aceite: 31/11/2023

DOI: https://doi.org/10.31211/rpics.2023.9.2.306

Resumo

Objetivo: O presente estudo objetivou avaliar a influência dos traços de personalidade no fenômeno do impostor, controlando o papel de variáveis demográficas, e validar a Escala Clance do Fenômeno do Impostor (ECFI) em uma amostra universitária do nordeste brasileiro. Métodos: Avaliaram-se 204 estudantes universitários de uma Instituição de Ensino Superior do Piauí (Midade = 22,88), maioritariamente do sexo feminino (57,3%) e dos cursos de Psicologia (38,9%) e Pedagogia (15,7%), utilizando o Inventário dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade (ICFP-20), a ECFI e um Questionário sociodemográfico. Resultados: A estrutura unifatorial da ECFI foi confirmada por uma Análise Fatorial Confirmatória e a sua confiabilidade foi assegurada (α = 0,92 e ω = 0,92). Uma regressão múltipla hierárquica revelou que, além da idade, a conscienciosidade e o neuroticismo foram traços significativos na previsão do fenômeno do impostor, enquanto o sexo não se mostrou um preditor significativo. Conclusões: Os resultados validam a ECFI e reforçam a importância de traços de personalidade, como conscienciosidade e neuroticismo, em relação à vulnerabilidade ou resistência ao fenômeno do impostor, especialmente em estudantes mais jovens.

Palavras-Chave: Fenômeno do Impostor; Traços de Personalidade; Universitários; Conscienciosidade; Neuroticismo; Estudo Transversal.

Abstract

Objective: This research aimed to investigate the influence of personality traits on the impostor phenomenon by controlling for demographic variables and to validate the Clance Impostor Phenomenon Scale (CIPS) in a Northeast Brazilian university sample. Method: We assessed 204 university students from a Higher Education Institution in Piauí (Mage = 22.88), predominantly female (57.3%) from Psychology (38.9%) and Pedagogy (15.7%) programs, using the Inventory of the Big Five Personality Factors (IBFP-20), the CIPS, and a Sociodemographic questionnaire. Results: The CIPS’s unifactorial structure was confirmed by Confirmatory Factor Analysis, and its reliability was secured (α = 0.92 and ω = 0.92). Hierarchical multiple regression revealed that alongside age, conscientiousness and neuroticism were significant traits predicting the impostor phenomenon, while gender did not prove to be a significant predictor. Conclusions: The findings validate the CIPS and emphasize the significance of personality traits, such as conscientiousness and neuroticism, in relation to the vulnerability or resilience to the impostor phenomenon, particularly in younger university students.

Keywords: Impostor Phenomenon; Personality Traits; University Students; Conscientiousness; Neuroticism; Cross-Sectional Study.

Introdução

O Fenômeno do Impostor, termo inicialmente cunhado por Clance e Imes (1978), é um constructo psicológico que descreve a experiência de sentir-se como uma fraude ou impostor, apesar de evidências de competência e realizações pessoais (Chakraverty, 2022; Freeman et al., 2022; Vergauwe et al., 2015). Também conhecido como síndrome do impostor, esse fenômeno é caracterizado por um medo persistente de ser desmascarado como inadequado ou não merecedor do sucesso (Chakraverty, 2022; Gottlieb et al., 2019; Sims & Cassidy, 2020). Indivíduos que vivenciam o fenômeno do impostor frequentemente atribuem seus êxitos e conquistas a fatores externos, como sorte ou ajuda de outras pessoas, em detrimento do reconhecimento das competências e aptidões individuais (Chakraverty, 2022; Clance & Imes, 1978). Essa incapacidade de internalizar o próprio status e sucesso pode causar níveis significativos de sofrimento emocional (Wang et al., 2019).

O fenômeno do impostor é descrito como uma experiência interna de fraude intelectual e uma crença persistente e equivocada de que as conquistas são imerecidas, apesar de evidências objetivas contrárias (Neureiter & Traut-Mattausch, 2016; Sims & Cassidy, 2020).

As repercussões psicológicas deste fenômeno são variadas, estendendo-se desde estresse, burnout, diminuição da autoestima, sintomatologia ansiosa ou depressiva (Bravata et al., 2020; Henning et al., 1998; Neureiter & Traut-Mattausch, 2016; Villwock et al., 2016).

Prevalente entre indivíduos com elevado desempenho, especialmente em contextos acadêmicos, de saúde e profissionais (Chakraverty, 2022; Gottlieb et al., 2019; Vergauwe et al., 2015; Yaffe, 2023), este fenômeno promove uma resistência em aceitar o mérito pessoal pelo sucesso obtido, alimentada pelo receio de ser desacreditado e no potencial ostracismo social e profissional subsequente (Ménard & Chittle, 2023). Adicionalmente, este fenômeno afeta negativamente o avanço profissional e a proatividade em busca de novos desafios ou cargos de liderança (Feenstra et al., 2020; Neureiter & Traut-Mattausch, 2016).

Indivíduos que experienciam o impostorismo estão continuamente questionando suas próprias habilidades e desacreditando na sua capacidade de aprimorar suas competências, o que configura uma auto discrepância entre sua autoimagem e suas realizações (Domínguez-Soto et al., 2021). Ademais, tendem a suprimir suas capacidades acadêmicas e subestimar sua autoimagem perante os outros, temendo um possível insucesso futuro, não reconhecendo suas conquistas e desenvolvendo uma autoavaliação negativa (Clance et al., 1995).

Especificamente, no contexto acadêmico, o fenômeno do impostor é amplamente observado entre estudantes universitários, como reportado em diversas investigações (Ménard & Chittle, 2023). Essa prevalência é corroborada por diferentes estudos que exploraram este fenômeno em múltiplas disciplinas e contextos geográficos. Estudos realizados em contextos variados, como entre estudantes de medicina no Reino Unido e Israel, de educação musical e em pós-graduações diversas nos Estados Unidos, convergem ao indicar que uma proporção significativa de estudantes vivencia sentimentos de impostor, associados frequentemente a perfeccionismo e distúrbios psicológicos, e que este padrão afeta tanto a performance acadêmica quanto a saúde mental dos alunos (Cisco, 2019; Franchi et al., 2023; Henning et al., 1998; Kaukab & Iftikhar, 2021; Levant et al., 2020; Sims & Cassidy, 2020; Villwock et al., 2016; Yaffe, 2023).

No contexto brasileiro, os estudos com universitários ainda são escassos, incidindo especialmente nos estudantes que cursam medicina. A pesquisa conduzida por Campos et al. (2022) abarcou alunos do curso de medicina do nordeste brasileiro, identificando uma prevalência variada do fenômeno, que também se mostrou associado a indicadores de saúde mental adversos. De maneira similar, Diniz et al. (2023) constataram a existência de níveis moderados do fenômeno entre esses estudantes, com uma incidência particularmente mais acentuada entre as mulheres.

Esta complexidade de vivências, sinalizada pelos estudos mencionados, pode ter suas raízes na percepção da universidade como um ambiente exigente, com potencial impacto negativo sobre a saúde mental dos estudantes. Consoante à análise de Fassl et al. (2020), a constante avaliação do desempenho acadêmico instiga uma pressão significativa, que pode culminar em um reconhecimento deficiente das próprias conquistas. Soares et al. (2021) corroboram esta perspectiva, observando que, mesmo frente a um desempenho acadêmico destacado, não é incomum que universitários subvalorizem suas competências, atribuindo o êxito a fatores exógenos, como sorte ou a ajuda de terceiros. Em paralelo, Bravata et al. (2020) discutem como essa atribuição externa de sucesso, ao passo que os fracassos são internalizados, reforça a sensação de inadequação, constituindo um ciclo de autoavaliação distorcida que perpetua o fenômeno do impostor.

À luz dos efeitos adversos do fenômeno do impostor, uma linha emergente de investigação tem se dedicado a desvendar os fatores preditores e as condições que exacerbam esses sentimentos impostores, assim como a eficácia de intervenções destinadas a atenuá-las (Vergauwe et al., 2015). Nesse âmbito, o fenômeno do impostor tem sido associado a fatores individuais como o gênero, idade e traços de personalidade.

Quando Clance e Imes (1978) introduziram o conceito do fenômeno do impostor, identificaram-no especificamente em mulheres no meio acadêmico e profissional, as quais expressavam, em contextos terapêuticos, um persistente sentimento de incompetência e fraude, a despeito de evidências externas de suas capacidades e sucessos. Esta observação pioneira indicava uma possível prevalência do fenômeno entre o gênero feminino, hipótese que foi corroborada por pesquisas subsequentes como as de Fleischhauer et al. (2021) e Muradoglu et al. (2022). Contudo, outra literatura apresenta um quadro mais complexo. Estudos realizados por Bravata et al. (2020), Camara et al. (2022), e Pákozdy et al. (2023) não encontraram diferenças significativas de gênero na experiência do impostorismo, sugerindo uma prevalência mais uniforme do que se presumia anteriormente. A posição de Slank (2019) reflete esta tendência, ao argumentar que as associações entre impostorismo e gênero são insuficientemente consistentes para formular conclusões definitivas. Esta visão é reforçada por uma série de pesquisas em contextos universitários que ora reportam diferenças de gênero nas vivências do fenômeno do impostor, com algumas indicando uma maior incidência em mulheres (Domínguez-Soto et al., 2021), ora refutam tal disparidade (Bravata et al., 2020; Duncan et al., 2023; Kaur & Jain, 2022).

Prosseguindo na análise de variáveis demográficas, a idade emerge como um fator relevante na investigação do fenômeno do impostor. A revisão sistemática realizada por Bravata et al. (2020) sugere que, embora as evidências sobre o impacto da idade no fenômeno do impostor sejam inconclusivas, existem indicativos de que o tipo de população (acadêmico versus profissional) pode ser um moderador relevante nessas diferenças. A tendência geral, porém, é a de que a intensidade dos sentimentos impostores diminua com o avanço da idade (Chae et al., 1995; Thompson et al., 1998). Esta tendência de declínio é observável tanto em amostras com universitários (Ménard & Chittle, 2023), quanto em populações profissionais, conforme revelado em um estudo com professores do ensino superior público no Brasil (Mello et al., 2023). A interpretação desses achados pode estar relacionada ao aumento da experiência e da autoconfiança acumulada com o passar dos anos, bem como à maturidade emocional que atenua as autopercepções negativas associadas ao impostorismo.

Complementando a análise das variáveis demográficas com dimensões psicológicas, a personalidade surge como um construto influente no cenário psicossocial acadêmico (Silva et al., 2022). Os traços de personalidade, que são padrões consistentes e duradouros de pensamento, sentimento e comportamento (Gouveia et al., 2021), emergem como fatores significativos na compreensão do impostorismo. Neste âmbito, o modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade, ou ‘Big Five’, é frequentemente convocado para elucidar a propensão ao fenômeno do impostor (Holden et al., 2021; Lee et al., 2021). Esse modelo tem ganhado destaque em pesquisas psicológicas por sua aplicabilidade transversal a diversas culturas, etnias e contextos socioeconômicos, denotando sua robustez e generalidade (Shchebetenko et al., 2020). Especificamente, os estudos têm consistentemente mapeado a contribuição dos traços de personalidade enquanto fatores disposicionais que explicam o fenômeno do impostor (Vergauwe et al., 2015). Estes cinco traços são: (a) Abertura à experiência, caracterizada por qualidades como a imaginação, sensibilidade artística e curiosidade intelectual; (b) Conscienciosidade, denotando uma orientação para a realização de tarefas e objetivos, e incluindo traços como responsabilidade, organização e diligência; (c) Extroversão, que engloba traços como sociabilidade, assertividade, entusiasmo e energia; (d) Amabilidade, refletida por qualidades como compaixão, confiabilidade e empatia; e (e) Neuroticismo, o qual é indicativo de uma predisposição para experimentar emoções negativas, manifestando-se em instabilidade emocional, ansiedade e pessimismo (Gouveia et al., 2021).

No que diz respeito à relação entre fenômeno do impostor e os fatores da personalidade, destaca-se o papel do neuroticismo e da conscienciosidade. Pesquisas indicam uma correlação positiva entre neuroticismo e tendências impostoras, e uma correlação negativa entre conscienciosidade e essas mesmas tendências (Kaur & Jain, 2022; Vergauwe et al., 2015). Ou seja, traços neuróticos como insegurança e ansiedade tendem a amplificar a susceptibilidade a sentimentos impostores (Fimiani et al., 2021). Por outro lado, indivíduos com elevados níveis de conscienciosidade tendem a demonstrar maior disciplina e comprometimento com o alcance de objetivos, o que pode levar a uma maior organização e conscientização de suas ações e consequências (Gouveia et al., 2021), possivelmente atenuando a percepção de ser um 'impostor'.

É importante salientar que a análise dos fatores da personalidade, em relação ao fenômeno do impostor, recebeu confirmação adicional através da revisão de literatura realizada por Ménard e Chittle (2023). Este estudo, enfocando amostras de estudantes universitários, corroborou a influência preponderante do neuroticismo e da conscienciosidade na manifestação do fenômeno do impostor. Evidências anteriores já indicavam um padrão similar, assinalando que os outros traços do Big Five — abertura à experiência, extroversão e amabilidade — não apresentam relações significativas com o fenômeno do impostor. Estes achados são fundamentais para sustentar a hipótese de que os traços de conscienciosidade e neuroticismo podem atuar, respectivamente, como fatores de proteção e de risco para o desenvolvimento de sentimentos associados ao impostorismo (Bernard et al., 2002; Rohrmann et al., 2016; Ross et al., 2001).

Considerando a prevalência e as consequências do fenômeno do impostor no desempenho acadêmico e bem-estar dos estudantes universitários, bem como as evidências que vinculam variáveis demográficas e traços de personalidade ao fenômeno do impostor, esta pesquisa tem como finalidade aprofundar a compreensão dessas relações em uma amostra de estudantes universitários no interior do Piauí, Brasil. Os objetivos específicos são formulados com o intuito de esclarecer padrões de correlação e predição, potencializando a base para intervenções estratégicas. São eles:

Ao explorar estas dinâmicas, o estudo proposto busca contribuir para a literatura acadêmica, delineando uma compreensão mais nuançada das variáveis que interagem com o fenômeno do impostor (Meurer & Costa, 2020). Além disso, espera-se que os resultados informem o desenvolvimento de programas psicoeducacionais direcionados, que possam prevenir ou atenuar os impactos adversos do fenômeno do impostor entre os estudantes (Sawant et al., 2023). Estas intervenções, baseadas nos achados da presente pesquisa, poderão ser instrumentalizadas para a promoção de bem-estar e melhoria do desempenho acadêmico dos estudantes universitários (Meurer & Costa, 2020), contribuindo para a eficácia das estratégias de apoio educacional e psicológico no ensino superior (Sawant et al., 2023).

Método

Participantes

Na seleção dos participantes, foram considerados como critérios de inclusão: ser estudante universitário com idades igual ou superior a 18 anos e ser residente em estados do nordeste do Brasil. Quanto aos critérios de exclusão foram desconsiderados do estudo estudantes que não estivessem matriculados em cursos de graduação ou pós-graduação, indivíduos com histórico de transtorno psiquiátrico e aqueles que não deram o consentimento para participação na pesquisa.

O recrutamento dos participantes foi realizado em uma Instituição de Ensino Superior (IES) na cidade de Parnaíba, estado do Piauí, utilizando uma estratégia de amostragem não probabilística por conveniência. Foram priorizados cursos de áreas do conhecimento com exigência tradicional de alto desempenho acadêmico e carga de trabalho intelectual, com o objetivo de investigar a influência desses fatores na prevalência do fenômeno do impostor.

A amostra final do estudo consistiu em 204 estudantes universitários com uma média de idade de 22,88 anos (DP = 4,18) e com um intervalo etário entre 18 e 56 anos. A maioria dos participantes eram do gênero feminino (57,3%). Em termos de distribuição acadêmica, os cursos com maior representação foram Psicologia (38,9%) e Pedagogia (15,7%).

Instrumentos

Questionário Sociodemográfico

Este questionário incluiu a coleta de dados fundamentais sobre os participantes, focando em variáveis como idade e gênero. A idade foi documentada em anos completos. Quanto ao gênero, este foi registrado com o objetivo de identificar diferenças nos padrões de resposta. Relativamente ao nível educacional, detalhes específicos foram recolhidos, incluindo o curso de graduação, o ano acadêmico atual e se os participantes haviam reprovado em alguma disciplina. Além disso, informações detalhadas sobre o estado civil e ocupação profissional dos participantes foram coletadas, bem como a faixa de renda mensal, para proporcionar uma compreensão ampla do perfil socioeconômico do corpo discente envolvido.

Inventário dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade – Versão Breve (ICFP-20)

O ICFP-20 foi inicialmente elaborado por John e Srivastava (1999), reunindo 44 itens para avaliar os traços de personalidade. Contudo, no contexto brasileiro, Gouveia et al. (2021) propuseram uma versão abreviada e adaptada com 20 itens, mantendo a essência da avaliação dos cinco traços: Abertura à Experiência, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo. Cada item é avaliado por meio de uma escala tipo Likert de cinco pontos, que varia de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente), permitindo uma avaliação gradativa da concordância com afirmações que descrevem comportamentos ou estados emocionais típicos relacionados a cada traço de personalidade. A versão brasileira do ICFP demonstrou adequada validade fatorial (coeficientes de congruência: 0,85 – 0,90) e confiabilidade (α de Cronbach: 0,69 – 0,72), exceto para a Conscienciosidade (α de Cronbach = 0,56). No nosso estudo, obtivemos valores igualmente adequados de confiabilidade (α de Cronbach: 0,63 – 0,74).

Escala Clance do Fenômeno do Impostor (ECFI)

A ECFI foi elaborada originalmente por Clance (1985) e adaptada para o contexto brasileiro por Bezerra et al. (2021). A ECFI é composta por 20 itens destinados a medir o grau em que indivíduos experienciam sentimentos associados ao fenômeno do impostor, incluindo sentimentos de inadequação, autodúvida e a crença de que os sucessos alcançados são imerecidos, atribuídos à sorte ou ao engano. As respostas a cada item são registradas usando uma escala Likert de cinco pontos, oscilando entre 1 (não me descreve) e 5 (me descreve totalmente), com escores mais altos indicando um maior nível do fenômeno do impostor. No estudo brasileiro (Bezerra et al., 2021), a ECFI apresentou confiabilidade elevada (α de Cronbach = 0,95).

Procedimentos

Este estudo obteve aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa (CAAE: 60257122.9.0000.813, Parecer: 5.577.736) e autorização dos responsáveis da IES pública selecionada para a pesquisa. A fase de recolha dos dados transcorreu no período de 28 de agosto a 4 de novembro de 2022, acontecendo em ambiente controlado dentro de sala de aula, para assegurar a padronização do contexto de aplicação dos instrumentos. Informações detalhadas sobre os objetivos da pesquisa, o respeito pelo anonimato e a garantia de confidencialidade foram comunicadas aos participantes. Enfatizou-se a voluntariedade da participação, com a prerrogativa de desistência a qualquer instante, sem implicações adversas. Os participantes foram igualmente informados de que os dados seriam analisados agregadamente e acessíveis exclusivamente aos investigadores principais.

Antes da administração dos questionários, os participantes foram solicitados a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assegurando a compreensão plena dos termos do estudo.

O procedimento de coleta de dados envolveu o preenchimento autônomo dos questionários por parte dos estudantes, com a duração estimada entre 10 a 20 minutos para a conclusão. Os pesquisadores permaneceram disponíveis durante todo o processo para esclarecer dúvidas e assegurar o cumprimento das diretrizes éticas.

Análise Estatística

Os dados recolhidos foram tabulados e analisados por meio do software IBM SPSS, versão 26, para procedimentos descritivos e inferenciais.

Inicialmente, foram realizadas estatísticas descritivas (média e desvio padrão), visando caracterizar os participantes da amostra.

Posteriormente, a relação entre os traços de personalidade e o Fenômeno do Impostor, foram exploradas através do coeficiente de correlação de Pearson, delineando as relações bivariadas preliminares entre as variáveis de interesse. A magnitude das correlações foi avaliada de acordo com as convenções de Cohen (1988), onde r em torno de 0,10 é considerado pequeno, 0,30 médio, e 0,50 grande.

Subsequentemente, procedeu-se à análise de regressão múltipla hierárquica, objetivando conhecer o poder preditivo dos traços de personalidade em relação ao fenômeno do impostor. As variáveis demográficas, especificamente o sexo e a idade, foram introduzidas no modelo como covariáveis de controle para ajustar a análise, elucidando a influência independente dos traços de personalidade no constructo em estudo.

Adicionalmente, foi empregado o software R (versão 4.0.2), utilizando o pacote Lavaan, para executar uma Análise Fatorial Confirmatória (AFC) da ECFI. A transição de uma abordagem exploratória, conforme conduzida no estudo brasileiro de Bezerra et al. (2021), para uma confirmatória é uma etapa metodologicamente robusta que permite testar a adequação do modelo teórico proposto à estrutura dos dados coletados. A adequação do modelo foi avaliada por meio do estimador Weighted Least Squares Mean and Variance-Adjusted (WLSMV), um procedimento recomendado para dados ordinais e distribuições não normais (Brown, 2015). Os índices de ajuste do modelo incluíram o Comparative Fit Index (CFI) e o Tucker-Lewis Index (TLI), onde valores superiores a 0,95 foram interpretados como indicativos de um bom ajuste do modelo (Hu & Bentler, 1999). O Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) e o respectivo Intervalo de Confiança de 90% (IC90%) ofereceram uma medida de ajuste aproximado, com valores entre 0,05 e 0,08 sugerindo um ajuste aceitável e valores até 0,10 sendo considerados como o limite para um ajuste tolerável (Hair et al., 2019).

A confiabilidade das escalas foi avaliada utilizando o coeficiente alfa de Cronbach e o ômega de McDonald, através do pacote semTools no R.

Resultados

Validação da Estrutura Fatorial e Confiabilidade da ECFI

Preliminarmente, a validade relacionada à estrutura interna da ECFI foi submetida a teste por meio de AFC, utilizando o estimador WLSMV. O modelo unifatorial proposto previamente (Bezerra et al., 2021) foi corroborado com um ajuste robusto para o modelo testado [CFI = 0,96; TLI = 0,95; RMSEA = 0,05 (IC90%: 0,03 – 0,046 e p > 0,05)], apoiando a hipótese de unidimensionalidade e a validade da escala na captura do construto fenômeno do impostor.

Para confirmar que as pontuações da ECFI refletem adequadamente o fenômeno do impostor, a confiabilidade da escala foi avaliada. Os coeficientes de consistência interna, alfa de Cronbach e ômega de McDonald, apresentaram valores de α = 0,92 e ω = 0,92, respectivamente. Estes indicadores superam o limiar de aceitabilidade de 0,70, sugerindo que a escala é uma medida confiável dos sentimentos associados ao fenômeno do impostor (Taber, 2018).

Correlações entre Traços de Personalidade e Impostorismo

Posteriormente, análises de correlação de Pearson exploraram as relações entre os traços de personalidade e o fenômeno do impostor. Os coeficientes de correlação indicaram relações estatisticamente significativas (p < 0,001) entre o fenômeno do impostor e três traços de personalidade (Tabela 1). Especificamente, a conscienciosidade e a extroversão mostraram correlações negativas, ainda que de pequena magnitude, sugerindo que níveis mais altos nestes traços estão associados a menores níveis de sentimentos de impostor. Por outro lado, o neuroticismo apresentou uma correlação positiva mais robusta, indicando que indivíduos com maior neuroticismo têm uma probabilidade significativamente maior de experimentar sentimentos associados ao fenômeno do impostor.

Tabela 1

Estatísticas Descritivas e Correlações entre Fenômeno do Impostor e os Traços de Personalidade

VariáveisMDPCorrelações (r)
123456
1. Fenômeno do Impostor64,9018,15-0,07-0,19**-0,16*-0,090,44**
2. Abertura à Experiência15,223,480,27**-0,050,110,02
3. Conscienciosidade16,012,90-0,120,32**0,22**
4. Extroversão13,593,590,10-0,01
5. Amabilidade16,912,69-0,01
6. Neuroticismo14,723,83

Nota. Os escores do Fenômeno do Impostor foram medidos utilizando a Escala Clance do Fenômeno do Impostor. Os traços de personalidade foram avaliados com o Inventário dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade – Versão Breve. * p < 0,05. ** p < 0,001.

Influência de Fatores Individuais no Fenômeno do Impostor

Para avaliar a extensão na qual características demográficas e traços de personalidade contribuem para a variação nos escores do fenômeno do impostor, realizou-se uma análise de regressão linear múltipla hierárquica. A variável dependente especificada foi o escore do fenômeno do impostor. No primeiro bloco, as variáveis demográficas de sexo (0 = Masculino, 1 = Feminino) e idade foram inseridas, seguidas pela introdução dos traços de personalidade que apresentaram relações significativas na análise correlacional (conscienciosidade, extroversão e neuroticismo) no segundo bloco.

A análise revelou que as variáveis demográficas explicaram 5% da variância total (R = 0,25; R2ajustado = 0,05; F(2, 181) = 5,76; p < 0,05). A inclusão dos traços de personalidade elevou significativamente a proporção de variância explicada para 27%. A idade emergiu como o único preditor significativo dentre as variáveis demográficas (p < 0,05), não sendo significativa a contribuição do sexo (p > 0,05). Ao examinar os traços de personalidade, quando controlado o efeito das variáveis demográficas, a conscienciosidade e o neuroticismo mantiveram-se como preditores significativos (p < 0,001), enquanto a extroversão não exibiu um efeito significativo (p > 0,05). As especificações completas desta regressão são apresentadas na Tabela 2.

Tabela 2

Análise de Regressão Hierárquica dos Preditores do Fenômeno do Impostor

VariáveisBDPβtModelo
Passo 1F(2, 181) = 5,76*
R2 = 0,05
Sexo a0,252,660,220,94
Idade-0,710,16-0,28**-4,44
Passo 2F(5, 178) = 14,83*
R2 = 0,27
ΔR2 = 0,22
Sexo a6,992,390,170,64
Idade-0,390,15-0,15*-2,31
Conscienciosidade-0,780,37-0,25*-3,60
Extroversão-0,450,26-0,07-0,24
Neuroticismo2,040,310,49**7,29

Nota. Os valores de B representam os coeficientes não padronizados e os DP correspondentes. Os coeficientes β são os padronizados. Os valores de t e p indicam a significância estatística das variáveis preditoras no modelo. a Masculino = 0; Feminino = 1. ** p < 0,001. * p < 0,05.

Discussão

O fenômeno do impostor pode ser caracterizado como uma resposta afetiva evocada em situações específicas e desafiadoras, como o âmbito laboral e acadêmico (Bravata et al., 2020). Em contexto acadêmico, particularmente, alunos que exibem níveis elevados deste fenômeno experimentam dúvidas persistentes sobre suas realizações, medo de serem expostos ou descobertos como uma fraude, além de tenderem a menosprezar sua inteligência e competência (Ménard & Chittle, 2023). Essa predisposição os conduz a uma dificuldade acentuada em internalizar o sucesso e a desconsiderar elogios e realizações, atribuindo suas conquistas a fatores externos, como sorte ou acaso fortuitos, em vez de internalizá-los em suas próprias habilidades (Kaur & Jain, 2022).

Nesse âmbito, a presente pesquisa visou elucidar o papel de determinadas características individuais (traços de personalidade, idade e gênero), na explicação de fenômeno do impostor. Em específico, buscou-se discernir em que medida os traços de personalidade poderiam explicar a manifestação do fenômeno do impostor, tendo em consideração os potenciais efeitos das variáveis demográficas, gênero e idade, em um grupo de estudantes universitários do interior do Piauí. Os achados principais da pesquisa são discutidos a seguir.

Inicialmente foi realizada uma AFC, devido à escassez de pesquisas empíricas sobre a estrutura interna da ECFI no contexto brasileiro. Ademais, deve-se ter em conta que a pesquisa realizada por Bezerra et al. (2021) foi a primeira com esse propósito no contexto brasileiro, resultando em um modelo unifatorial, como teoricamente sugerido. O atual estudo corroborou esses achados, evidenciando índices de ajuste do modelo robustos, em linha com as recomendações de Hair et al. (2019). Além disso, os coeficientes de consistência interna evidenciaram uma precisão meritória (α e ω > 0,90), de acordo com os critérios sugeridos por Pasquali (2016). Assim, esses resultados são coerentes com pesquisas prévias, reforçando que o fenômeno do impostor pode ser avaliado de maneira unidimensional (Chae et al., 1995; Wang et al., 2022; Živković, 2020).

Subsequentemente, buscou-se verificar se as variáveis demográficas (idade e sexo) eram preditoras do fenômeno do impostor. Quanto à variável idade, os resultados a indicaram como um preditor significativo do fenômeno, corroborando estudos anteriores que sugeriram uma maior propensão ao fenômeno em indivíduos mais jovens (Cohen & McConnell, 2019; Thompson et al., 1998). Entretanto, cabe ressaltar a existência de um debate acadêmico acerca da influência da idade no fenômeno do impostor. A revisão sistemática conduzida por Ménard e Chittle (2023) ressalta a carência de pesquisas focadas na idade como variável influente. Divergências na literatura são também evidentes: enquanto alguns trabalhos não identificam impacto significativo da idade (Brauer & Proyer, 2017; Sonnak & Towell, 2001), outros evidenciam uma correlação negativa entre idade e o fenômeno, sobretudo em amostras de estudantes de graduação (Thompson et al., 1998) e pós-graduação (Cohen & McConnell, 2019). Tal disparidade nos resultados sinaliza a necessidade de investigações adicionais para elucidação cabal da relação entre idade e o fenômeno do impostor.

A literatura sobre o fenômeno do impostor tem explorado a questão de gênero com resultados variados, refletindo as complexidades inerentes ao tópico. Inicialmente, estudos pioneiros como o de Clance e Imes (1978) identificaram o fenômeno do impostor predominantemente em mulheres bem-sucedidas. Esta linha de evidência é complementada por pesquisas mais recentes, como a de Domínguez-Soto et al. (2021) e Diniz et al. (2023), que também sugerem uma maior susceptibilidade das mulheres a experimentar sentimentos associados ao impostorismo. Contrastando com essas descobertas, Henning et al. (1998) forneceram evidências que destacaram uma maior prevalência do fenômeno entre os homens, introduzindo uma perspectiva alternativa sobre a questão de gênero no impostorismo. No entanto, um corpo crescente de pesquisa não detectou diferenças significativas de gênero na experiência do impostorismo. Isso inclui os achados do estudo atual, juntamente com os estudos de Camara et al. (2022), que ecoam esta posição. Da mesma forma, Campos et al. (2022), ao analisarem estudantes de medicina, e Peng et al. (2022), em sua revisão de escopo com estudantes de enfermagem, não identificaram o sexo como um preditor significativo do impostorismo. Esta visão é reforçada pelos resultados de Duncan et al. (2023) e Kaur & Jain (2022), que também não relataram disparidades de gênero substanciais. A revisão realizada por Bravata et al. (2020) é particularmente esclarecedora, dividindo os achados entre estudos que apontaram as mulheres como mais suscetíveis a experimentar sentimentos associados ao fenômeno do impostor e aqueles que não encontraram diferenças significativas entre os gêneros. Esta variedade de resultados sinaliza que o entendimento atual do fenômeno é insuficiente e destaca a necessidade de pesquisas futuras que empreguem métodos robustos e amostragens amplas e representativas. Esses estudos deverão contemplar múltiplas regiões brasileiras e diferentes campos de estudo universitário para elucidar o papel da variável gênero no impostorismo de maneira definitiva e contextualizada.

Os traços de personalidade emergem como elementos centrais no entendimento do fenômeno do impostor. O presente estudo adiciona ao corpo de conhecimento ao evidenciar uma correlação negativa entre o traço de conscienciosidade e o fenômeno do impostor. Este achado está alinhado com pesquisas prévias, que consistentemente apontam a conscienciosidade como um fator de proteção contra o desenvolvimento de crenças impostoras (Bernard et al., 2002; Chae et al., 1995; Rohrmann et al., 2016; Vergauwe et al., 2015). Tal correlação negativa sugere que as propriedades intrínsecas à conscienciosidade, tais como o rigor, a diligência e uma elevada ética de trabalho, operam antiteticamente às características típicas do fenômeno do impostor. Indivíduos conscienciosos são descritos na literatura como aqueles que possuem uma forte crença na própria autoeficácia e que, portanto, são menos propensos a duvidar das suas capacidades ou a subestimar suas contribuições para o sucesso alcançado (Clance & Imes, 1978). Esta convicção interna na capacidade de atingir objetivos e a consequente predisposição para a autoeficácia podem ser determinantes no empenho e na adoção de estratégias de aprendizagem autorregulada, que por sua vez são benéficas para o desempenho acadêmico (Eilam et al., 2009). Por outro lado, a manifestação acentuada do fenômeno do impostor é frequentemente acompanhada por um déficit em autodisciplina e uma percepção reduzida de competência própria (Bernard et al., 2002), o que pode comprometer tanto o processo quanto os resultados do desempenho acadêmico. Esta percepção distorcida de incompetência, identificada como uma faceta do fenômeno do impostor (Vergauwe et al., 2015), leva a uma tendência de atribuição externa de sucessos, tal como ao acaso ou à sorte, minimizando ou negando o papel das habilidades pessoais e competências na obtenção desses sucessos (Clance, 1985).

No que se refere ao traço neuroticismo, os resultados da presente pesquisa reforçam a associação entre esse traço de personalidade e a propensão ao fenômeno do impostor, especialmente no contexto acadêmico universitário. O neuroticismo, caracterizado pela tendência a experimentar emoções negativas, como ansiedade e depressão, é consistentemente identificado na literatura como um fator de risco, ou seja, de vulnerabilidade para o desenvolvimento de sentimentos impostores (Chae et al., 1995; Rohrmann, et al., 2016; Vergauwe et al., 2015). Em particular, a pesquisa conduzida por Kaur e Jain (2022) no contexto indiano contribui para este entendimento ao evidenciar que indivíduos com altos níveis de neuroticismo tendem a reportar maior intensidade no fenômeno do impostor. Esse padrão foi também observado em pesquisas anteriores, como a de Bernard et al. (2002), que correlacionou o fenômeno do impostor a características como ansiedade, depressão, baixa autodisciplina e percepção de competência reduzida em estudantes universitários. Os resultados da presente pesquisa adicionam ao corpo de conhecimento existente, destacando que o neuroticismo pode estar indiretamente associado a impactos negativos, entre os quais se inclui o fenômeno do impostor. Estudos anteriores já haviam apontado que pessoas com altas pontuações neste traço específico poderiam estar inclinadas ao desenvolvimento de mecanismos de enfrentamento inadequados (Silva et al., 2022), embora o presente estudo não tenha explorado diretamente tais estratégias de enfrentamento. Entretanto, ao mostrar uma correlação significativa entre o neuroticismo e o fenômeno do impostor, sugere-se que as repercussões deste traço de personalidade vão além da disposição para experienciar emoções negativas, influenciando também fenômenos psicológicos complexos que afetam o desempenho e o bem-estar em contextos acadêmicos. Tal correlação é corroborada pela pesquisa de Rokach e Boulazreg (2020), que identificou que indivíduos com alto neuroticismo enfrentam maiores níveis de estresse em tarefas acadêmicas, uma observação que se alinha indiretamente com os mecanismos de enfrentamento previamente mencionados. Além disso, a revisão realizada por Ménard e Chittle (2023) reforça essa perspectiva ao assinalar que sentimentos de impostor se relacionam com decréscimos na saúde mental e bem-estar dos estudantes universitários, sugerindo que indivíduos com elevadas pontuações em neuroticismo e fenômeno do impostor podem compartilhar vulnerabilidades psicológicas subjacentes. Assim, a integração dos resultados dessas pesquisas sugere a necessidade de considerar a experiência de sentimentos de impostor como um componente relevante na análise do sofrimento no âmbito acadêmico universitário (Fassl et al., 2020).

Limitações e Direções Futuras

A presente investigação alcançou os seus objetivos propostos, oferecendo insights sobre a associação entre neuroticismo e o fenômeno do impostor em um contexto acadêmico universitário. Contudo, é imprescindível considerar certas limitações que contextualizam os resultados obtidos e orientam as diretrizes para futuros estudos.

A primeira limitação foi a composição homogénea da amostra, que consistiu exclusivamente em estudantes de graduação de uma única instituição pública situada numa cidade do interior do Nordeste. Esta escolha amostral impõe restrições à generalização dos resultados. A unicidade geográfica e institucional pode refletir particularidades socioeconômicas e culturais que não são necessariamente extrapoláveis para outras populações estudantis, seja em outros contextos geográficos ou institucionais.

Outra limitação foi o recurso a medidas de autorrelato, que, apesar de serem ferramentas de pesquisa válidas e amplamente utilizadas, são suscetíveis à influência da desejabilidade social. Este viés pode levar os participantes a modificar suas respostas para alinhá-las com o que percebem como socialmente aceitável ou desejável (Silva et al., 2023; Stone-Sabali et al., 2023). Assim, as respostas podem não refletir com precisão as experiências reais dos indivíduos em relação ao fenômeno do impostor.

O caráter transversal da pesquisa também impõe limitações quanto à interpretação das relações temporais ou causais entre as variáveis estudadas. Por não acompanhar os indivíduos ao longo do tempo, o desenho transversal restringe a capacidade de discernir se as características do fenômeno do impostor são antecedentes ou são elas mesmas resultados de determinadas características de personalidade ou de acontecimentos específicos no percurso de vida dos indivíduos (Silva et al., 2022). Assim, estudos longitudinais são necessários para elucidar a direção da relação entre fenômeno do impostor e variáveis distintas (Pákozdy et al., 2023).

Adicionalmente, seria interessante verificar, em estudos futuros, a relação do fenômeno do impostor com outras variáveis, visando ampliar os fatores que podem explicar como os impostores se percebem e lidam com situações que envolvem o desempenho. Pode-se considerar, por exemplo, as evidências que indicam que o perfeccionismo está fortemente associado ao fenômeno do impostor (König & Palma, 2021; Soares et al., 2021). No entanto, os mecanismos subjacentes que interligam o perfeccionismo e o fenômeno do impostor ainda não estão totalmente esclarecidos (Cokley et al., 2018). Há evidências indicando que o perfeccionismo, especialmente em sua forma desadaptativa ou discrepante, pode contribuir para o aumento da ansiedade e do humor depressivo, principalmente quando mediado pelo fenômeno do impostor. Esse efeito pode ser atribuído à tendência de indivíduos com perfeccionismo desadaptativo se concentrarem em suas falhas percebidas e sentirem-se fraudulentos, o que pode levar à procrastinação de atividades acadêmicas como estratégia de redução da ansiedade (Silva et al., 2023; Silva et al., 2020; Soares et al., 2021).

A incorporação de variáveis socioculturais em estudos sobre o fenômeno do impostor surge como um componente de grande valor para uma compreensão mais holística desse fenômeno. A literatura sugere que aspectos culturais e sociais são intrínsecos à expressão e vivência de fenômenos psicossociais (Soares et al., 2021). Portanto, analisar mecanismos de enfrentamento como o apoio social, o recebimento de feedback positivo e a resiliência pode ser crucial, pois esses elementos mostraram-se eficazes contra o declínio da saúde mental, atenuando sintomas de esgotamento e depressão, e funcionando como fatores de proteção contra o fenômeno do impostor (Câmara et al., 2022). Esta perspectiva de resiliência e apoio social abre caminhos para a implementação de terapias baseadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental individual e em grupo, que podem ser particularmente benéficas para indivíduos que lidam com a sensação de ser um impostor, proporcionando estratégias para manejar sentimentos impostores e comorbidades associadas (Bravata et al., 2020).

Além disso, seria igualmente útil considerar grupos minoritários, uma vez que a discriminação racial e de gênero podem se configurar como fatores importantes a serem examinados no contexto da saúde mental e que possivelmente estão associados ao fenômeno do impostor (Fleischhauer et al., 2021). Minorias raciais, por exemplo, podem experienciar o fenômeno do impostor (Bravata et al., 2020) em decorrência de enfrentar racismo, discriminação e assédio relacionado à raça, o que pode impactar seu senso de pertencimento e valorização em ambientes acadêmicos (Chakraverty, 2022). É de igual importância considerar as experiências de pessoas LGBTQIAPN+, avaliando se o status de minoria sexual pode influenciar o desenvolvimento do fenômeno do impostor, dada a possível intersecção entre identidade sexual e experiências de marginalização (Abi-Habib et al., 2022). Ménard e Chittle (2023) reforçam que a investigação da relação entre etnia/raça e o fenômeno do impostor, incluindo possíveis mediadores como identidade racial e estresse minoritário, é um campo fértil para pesquisa futura. Ademais, investigações futuras devem explorar a etiologia dessas diferenças de grupo e os seus efeitos moderadores (Stone-Sabali et al., 2023). Especificamente, com o grupo de estudantes universitários, sugere-se que possíveis intervenções possam reduzir o fenômeno do impostor, atenuando os impactos negativos de variáveis que geralmente se relacionam com níveis mais acentuados de impostorismo, como por exemplo, tendências perfeccionistas desadaptativas (Pákozdy et al., 2023), neuroticismo e baixa autoestima (Fleischhauer et al., 2021).

Ainda, seria importante incluir estudantes de pós-graduação, pois esse grupo pode ser particularmente vulnerável ao fenômeno do impostor, devido a estresse e problemas de saúde (Bravata et al., 2020). A prevalência do fenômeno do impostor em diferentes áreas e níveis de estudo deve ser investigada, possibilitando a comparação entre estudantes de graduação e pós-graduação (Walker et al., 2023). Estudantes de doutorado, por exemplo, que frequentemente experimentam o fenômeno do impostor, tendem a questionar sua competência, o que pode exacerbar sentimentos de inadequação e contribuir para sintomas de ansiedade e depressão (Tigranyan, et al., 2021).

Além disso, fatores institucionais e ambientais presentes em programas de pós-graduação, como a disponibilidade e qualidade da orientação, a competitividade por financiamento e o isolamento social, podem igualmente intensificar sentimentos impostores (Cohen & McConnell, 2019). Há evidências que sugerem importância de promover crenças de autoeficácia e apoio social entre estudantes de pós-graduação, enfatizando o valor de ser reconhecido por colegas e professores e de ter experiências positivas por meio de contribuições acadêmicas, o que pode ser fundamental para o desenvolvimento da confiança em suas habilidades para alcançar com êxito os seus objetivos acadêmicos (Tao & Gloria, 2018).

Conclusão

Este estudo confirma a associação entre o fenômeno do impostor e traços de personalidade tais como neuroticismo e conscienciosidade, consistentemente com pesquisas prévias (Kaur & Jain, 2022). Estes traços parecem desempenhar papéis críticos como fatores de risco e proteção no contexto acadêmico, sugerindo a necessidade de intervenções personalizadas que abordem as particularidades dos estudantes universitários (Silva et al., 2022). A implementação de programas de orientação estudantil e suporte acadêmico (Ménard & Chittle, 2023) poderia ser particularmente benéfica para estudantes mais jovens, que são propensos a maiores níveis do fenômeno do impostor. Destaca-se a importância de futuras investigações para refinar as estratégias de suporte e intervenção, visando promover o bem-estar e o sucesso acadêmico em populações estudantis diversificadas.

Agradecimentos e Autoria

Agradecimentos: As/Os autoras/es indicaram agradecimentos às seguintes instituições: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pela concessão de bolsa de Pós-Doutorado ao primeiro autor (N.º ID: 88887.837954/2023-00); ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela concessão de bolsa de produtividade em Pesquisa a quarta autora (N.º ID: PQ2 CNPq - Processo 306040/2021-2) e oitavo autor (N.º ID: PQ2 CNPq - Processo 307425/2022-3); Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI), pela concessão de bolsa de Iniciação Cientifica a terceira autora (N. ID: FAPEPI Nº 004-2022 - PBIC - Protocolo 7730.PGR288.56861.08082022); Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), pela concessão de bolsa de Iniciação Cientifica a sexta autora (N.º ID: CNPJ: 33.519.114/0001-00).

Conflito de Interesses: As/Os autoras/es não indicaram quaisquer conflitos de interesse.

Fontes de Financiamento: Este estudo não recebeu qualquer financiamento específico.

Declaração de Contributos de Autoria CRediT: PGNS: Conceptualização; Metodologia; Análise Formal; Investigação; Redação – Rascunho Original. GRA: Conceptualização; Metodologia; Validação; Redação – Rascunho Original. LRLC: Conceptualização; Metodologia; Investigação; Redação – Rascunho Original. PCBM: Conceptualização; Metodologia; Supervisão. ACMMS: Conceptualização; Metodologia; Redação – Revisão e Edição. MCCS: Conceptualização; Metodologia; Redação – Revisão e Edição. RSA: Conceptualização; Metodologia; Redação – Revisão e Edição. EDM: Conceptualização; Metodologia; Supervisão; Gestão de Projeto.

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