Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social · 2023 · Vol. 9(2): 1–15
Portuguese Journal of Behavioral and Social Research · e-ISSN 2183-4938
Departamento de Investigação & Desenvolvimento · Instituto Superior Miguel Torga

Artigo Original

Autocriticismo como mediador entre o stress de infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva em mulheresSelf-criticism as a mediator between infertility stress and anxious and depressive symptoms in women

Micaela Alves 1  ·  Susana Santos 1,2,3  ·  Juliana Pedro 4,5

1 Universidade Portucalense Infante D. Henrique, Departamento de Psicologia e Educação, Portugal

2 Universidade Portucalense Infante D. Henrique, Instituto Portucalense de Psicologia (I2P), Portugal

3 Universidade de Coimbra, Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitiva e Comportamental (CINEICC), Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Portugal

4 Centro de Genética da Reprodução A. Barros, Portugal

5 Universidade do Porto, Centro de Psicologia, Portugal

Recebido: 29/07/2023  ·  Revisto: 26/10/2023  ·  Aceite: 15/11/2023

DOI: https://doi.org/10.31211/rpics.2023.9.2.307

Resumo

Objetivo: Explorar o papel mediador do autocriticismo na relação entre o stress da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva em mulheres diagnosticadas com infertilidade ou a tentar conceber há mais de um ano. Métodos: Participaram 130 mulheres, entre 21 e 44 anos, com diagnóstico de infertilidade ou a tentar conceber há mais de um ano, recrutadas por método não probabilístico, através de amostragem por autosseleção. Utilizou-se uma plataforma online para o preenchimento de instrumentos de autorresposta, visando a recolha de dados sociodemográficos, clínicos e avaliação do stress da infertilidade, autocriticismo, e sintomatologia ansiosa e depressiva. Resultados: A análise mediacional mostrou que maiores níveis de stress na infertilidade se associaram a níveis mais elevados de sintomatologia ansiosa e depressiva, sendo esta relação parcialmente mediada pelo autocriticismo. Conclusões: A infertilidade, ao induzir stress, pode levar a um diálogo interno crítico, aumentando a vulnerabilidade para sintomatologia ansiosa e depressiva. Intervenções focadas na compaixão podem ser benéficas para esta população.

Palavras-Chave: Autocriticismo; Infertilidade Feminina; Stress; Sintomatologia Depressiva; Sintomatologia Ansiosa; Estudo Transversal.

Abstract

Objective: To explore the mediating role of self-criticism in the relationship between infertility stress and symptoms of anxiety and depression in women diagnosed with an infertility diagnosis or trying to conceive for more than a year. Method: The study included 130 women aged 21 to 44, either diagnosed with infertility or attempting to conceive for over a year, recruited through a non-probabilistic method by self-selection. An online platform was used for the completion of self-report instruments to collect sociodemographic and clinical information and to assess infertility stress, self-criticism, and symptoms of anxiety and depression. Results: Mediational analysis showed that higher levels of infertility stress were associated with more symptoms of anxiety and depression, with this relationship being partially mediated by self-criticism. Conclusions: Infertility, as a stress inducer, can lead to critical internal dialogue, increasing the vulnerability to symptoms of anxiety and depression. Compassion-focused interventions may be beneficial for this population.

Keywords: Self-criticism; Female Infertility; Stress; Anxiety Symptoms; Depressive Symptoms; Cross-sectional Study.

Introdução

A infertilidade é definida como a ausência de gravidez após 12 ou mais meses de relações sexuais desprotegidas. As causas podem ser atribuídas ao sistema reprodutor feminino, masculino, ou serem de natureza mista, ou desconhecida (Zegers-Hochschild et al., 2009, 2017). Um estudo de revisão sistemática realizado por Mascarenhas et al. (2012), revelou que aproximadamente 48,5 milhões de casais são afetados por infertilidade mundialmente.

Especificamente, em Portugal, o estudo Afrodite estimou uma prevalência de infertilidade entre 9–10% (Silva-Carvalho & Santos, 2009). Conforme reportado pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (2020), 2797 crianças nasceram em Portugal em 2020 através de técnicas de procriação medicamente assistida (PMA), representando 3,3% do total de nascimentos nesse ano.

Esta realidade numérica sublinha a relevância dos tratamentos de PMA, os quais, apesar de serem uma esperança para muitos casais, acarretam também desafios significativos. Em particular, o diagnóstico e os tratamentos de PMA podem exercer um impacto psicológico negativo, particularmente nas mulheres. Nomeadamente, vários estudos indicam uma prevalência aumentada de sintomas psicopatológicos entre mulheres enfrentando infertilidade, comparativamente com mulheres férteis (Cwikel et al., 2004; Lakatos et al., 2017). Também em Portugal, uma pesquisa conduzida por Galhardo et al. (2011b) revelou que casais inférteis apresentam níveis mais elevados de sintomatologia ansiosa e depressiva do que casais férteis ou casais com problemas de fertilidade que optam por adoção em vez de tratamento médico.

Esta evidência empírica realça a necessidade de uma análise mais profunda dos aspetos psicológicos da infertilidade. Neste contexto, para uma compreensão aprofundada da psicopatologia associada à infertilidade, é instrutivo examinar a sintomatologia ansiosa e depressiva à luz do modelo de coping e stress de Lazarus e Folkman (1984), assim como da teoria das mentalidades sociais, que destaca o papel do autocriticismo (Gilbert & Procter, 2006).

A infertilidade é frequentemente vivenciada como uma experiência física e psicologicamente exigente (Cunha et al., 2016), podendo ser considerada um indutor de stress (Ramazanzadeh, et al., 2009), em especial nas mulheres. De forma consistente a literatura indica que as mulheres apresentam níveis mais elevados de stress específico da infertilidade, comparativamente ao dos cônjuges (Awtani et al., 2017; Bose et al., 2021; Casu et al., 2019; Galhardo et al., 2013; Holley et al., 2015; Newton et al., 1999).

Segundo Newbegin (2015), o stress pode ser definido como um estado de tensão mental e emocional resultante de circunstâncias adversas ou exigentes. Nestas circunstâncias, a perceção de que as exigências superam os recursos disponíveis pode resultar em elevados níveis de stress, afetando negativamente o bem-estar (Pozza et al., 2019; Ramos, 2004). No que diz respeito ao stress específico da infertilidade, este pode ter impacto em vários domínios (Schmidt et al., 2005a), particularmente nas mulheres. Zurlo et al. (2019) apontam que os domínios associados ao stress específico da infertilidade estão associados a um aumento significativo da sintomatologia ansiosa e depressiva. Ou seja, quanto maiores os níveis de stress, piores são os indicadores de saúde mental em indivíduos com problemas de fertilidade (Galhardo et al., 2013). Hoff et al. (2015) verificaram que durante os tratamentos, uma proporção significativa das mulheres se identifica com o estado ansioso (62%) e depressivo (50%). Boivin et al. (2022) verificaram que o prolongamento dos tratamentos e tentativas malsucedidas afetam negativamente a saúde mental, e consequentemente, os relacionamentos e atividades diárias. Duas meta-análises recentes mostraram que a prevalência de depressão é significativamente maior em mulheres com infertilidade quando comparadas com população geral (Kiani et al., 2021), e a prevalência da ansiedade é também elevada, situando-se entre 25 a 54% (Kiani et al., 2020).

Na perspetiva feminina, a vivência da infertilidade pode estar associada à perda do papel tradicional da maternidade, que é frequentemente valorizado na sociedade (Galhardo et al., 2011b; Lopes & Leal, 2012). Apesar da relação estabelecida entre stress específico da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva, os caminhos subjacentes a essas associações permanecem por esclarecer.

A vivência do stress associado à fertilidade pode ser explicada pela forma como as mulheres lidam com esta situação, ativando processos cognitivos e emocionais potenciadores do sofrimento psicológico. Neste âmbito, um fator psicológico relevante pode ser o autocriticismo. Diferentemente da autocompaixão, o autocriticismo caracteriza-se por uma atitude dura, crítica e punitiva para consigo mesmo diante de falhas, insucessos ou desapontamentos (Castilho & Pinto-Gouveia, 2011; Gilbert et al., 2004; Whelton & Greenberg, 2005). Estudos em amostras não clínicas indicam que indivíduos mais autocríticos apresentam maior vulnerabilidade para desenvolver sintomatologia ansiosa e depressiva (Castilho et al., 2010; Gilbert el al., 2004; Halamová et al., 2018). A pouca investigação no contexto da infertilidade parece congruente com estes resultados. Num estudo português, Galhardo et al. (2011b) verificaram que pessoas com problemas de fertilidade tendem a ser mais duras e críticas consigo mesmas, comparativamente com casais férteis ou aqueles que optam pela adoção, percecionando-se como menos atraentes, sem valor, defeituosos ou inferiores.

Galhardo et al. (2020) sugerem ainda que pessoas com infertilidade podem evitar situações envolvendo crianças para evitar pensamentos relacionados à ausência de gravidez, como encontros familiares ou com amigos, o que pode contribuir para a sintomatologia psicopatológica. Estes dados sugerem que o stress relacionado com a infertilidade pode promover uma adaptação mais desfavorável e que o autocriticismo pode ser um fator influenciador dessa dinâmica negativa. De facto, os processos de regulação emocional adotados são fundamentais para a saúde mental. Nesse sentido, a identificação dos fatores de risco e/ou proteção poderá permitir prevenir o aparecimento ou exacerbação das dificuldades emocionais (Cunha et al., 2016).

A revisão da literatura revela uma lacuna no que concerne ao papel do autocriticismo na saúde mental no contexto da infertilidade (Galhardo et al., 2011b; Galhardo et al., 2013). Estudos anteriores, como os conduzidos por Kotera et al. (2021) e Lassri et al. (2013), testaram um modelo de mediação envolvendo autocriticismo em populações específicas, como estudantes universitários e indivíduos em situação de guerra, mas sua aplicabilidade em contextos de infertilidade permanece pouco explorada.

O presente estudo visa assim preencher essa lacuna, explorando especificamente o papel mediador do autocriticismo na relação entre o stress específico da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva em mulheres que vivenciam barreiras à fertilidade. Hipotetiza-se que o stress específico da infertilidade possa ter um efeito direto sobre a sintomatologia ansiosa e depressiva, com o autocriticismo mediando este efeito. A identificação destes mecanismos de mediação poderá contribuir para o desenvolvimento de estratégias de intervenção (e.g., autocompaixão) que poderão potencialmente reduzir o stress, sintomatologia ansiosa e depressiva em pessoas diagnosticadas com infertilidade.

Método

Procedimentos e Participantes

O presente estudo integrou um projeto de investigação mais abrangente intitulado “Fatores Protetores e de Risco para a Saúde Mental no Contexto da infertilidade”, aprovado pela comissão de ética da [CES-UPT: 1/07/2023]. A divulgação foi realizada através de páginas do Instagram e Facebook, criadas exclusivamente para este propósito. Os critérios de inclusão abrangeram indivíduos de ambos os sexos, com idades entre 18 e 45 anos, em relações heterossexuais, fluentes na língua portuguesa, e com diagnóstico de infertilidade ou tentativas de conceção por mais de 12 meses.

Antes da participação, os voluntários receberam um consentimento informado, detalhando os objetivos do estudo e salvaguardado o anonimato e a confidencialidade dos dados. Um e-mail do projeto foi disponibilizado para esclarecimentos ou desistências. Os procedimentos éticos seguiram a Declaração de Helsínquia de 1964, e suas reformulações, e o código de ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Os dados foram recolhidos entre dezembro de 2021 e março de 2022, através de amostragem não probabilística de autosseleção, através de um formulário Google Forms.

Foram excluídos indivíduos do sexo masculino (n = 3), resultando numa amostra final de 130 mulheres.

As idades variaram de 21 a 44 anos, com média de 34,08 anos (DP = 4,39). A maioria era casada ou em união de facto (n = 123; 94,6), com um nível socioeconómico médio segundo a classificação de Simões (1994) (n = 85; 65,4%). Clinicamente, a maioria apresentava diagnóstico de infertilidade feminina ou inexplicada e recorreu a técnicas de PMA (n = 95; 73,1%). Cerca de 70% (n = 91) nunca haviam realizado acompanhamento psicológico. Detalhes sobre as variáveis sociodemográficas e clínicas encontram-se na Tabela 1.

Tabela 1

Características Sociodemográficas e Variáveis Clínicas da Amostra

Variáveisn%
Estado Civil
Casado(a)/União de facto12394,6
Divorciado75,5
Nível Socioeconómico (NSE)
NSE baixo2015,4
NSE médio8565,4
NSE elevado2519,2
Diagnóstico de Infertilidade
Idiopático/Inexplicável3930,0
Fator Feminino4030,8
Fator Masculino2317,7
Fator Misto2821,5
Técnicas de PMA
Estimulação ovárica1713,1
Inseminação Intrauterina129,2
Fertilização in vitro2922,3
Injeção intracitoplasmática de espermatozoides2720,8
Outros107,7
Acompanhamento Psicológico
Sim3930,0
Não9170,0

Nota. N = 130.

Instrumentos

Ficha de Características Sociodemográficas e Clínicas

Desenvolveu-se uma ficha específica para a recolha de dados sociodemográficos e clínicos, abrangendo variáveis como idade, sexo, estado civil e nível socioeconómico, bem como fatores clínicos relevantes, tais como o tipo de infertilidade, técnicas de PMA utilizadas e histórico de apoio psicológico.

Escala de Problemas de Stress (COMPI)

A COMPI, desenvolvida por Schmidt et al. (2005a) e adaptada para uso intercultural por Sobral et al. (2017), foi utilizada para avaliar o stress específico da infertilidade. Este instrumento de autorresposta inclui 14 itens que avaliam o stress específico da infertilidade, distribuídos pelos domínios Pessoal (e.g., “É muito stressante para mim lidar com este problema de fertilidade”), Marital (e.g., “Em que medida o seu problema de fertilidade causou stress no seu casamento?”) e Social (e.g., “Em que medida o seu problema de fertilidade causou stress na sua relação com a sua família?”). As respostas são dadas numa escala de Likert variando de 1 (não, de maneira nenhuma/de todo) a 4 (um grande problema) para alguns itens e de 1 (concordo fortemente) a 5 (discordo fortemente) para outros. As pontuações mais altas, após a inversão dos itens invertidos, indicam níveis mais elevados de stress específico da infertilidade. A COMPI demonstrou uma boa consistência interna, com um alfa de Cronbach variando de 0,76 (domínio Marital) a 0,85 (domínio Pessoal) na amostra do estudo de validação (Sobral et al., 2017). No presente estudo, o alfa de Cronbach foi de 0,86.

Escala de Formas do Autocriticismo/Ataque e AutoTranquilizante (FSCRS)

A FSCRS, desenvolvida por Gilbert et al. (2004) e adaptada para o português por Castilho e Pinto-Gouveia (2011), foi utilizada para avaliar o autocriticismo. Este instrumento de autorresposta consiste em 22 itens, desenhados para avaliar a forma como as pessoas se autocriticam, atacam e/ou autotranquilizam em situações de fracasso e erro. No presente estudo, devido a um lapso na introdução do questionário online, apenas 21 itens foram utilizados. A escala engloba três subescalas:

Segundo as orientações de Castilho e Pinto-Gouveia (2011), o autocriticismo foi avaliado através da média dos itens das subescalas Eu Inadequado e Eu Detestado. As respostas são dadas numa escala tipo Likert de cinco pontos, variando de não sou assim (0) a sou extremamente assim (4), onde pontuações mais elevadas indicam níveis mais altos de autocriticismo. Quanto às propriedades psicométricas, a versão portuguesa (Castilho & Pinto-Gouveia, 2011) apresentou alfas de Cronbach que variaram entre 0,62 (Eu Detestado) e 0,89 (Eu Inadequado). No presente estudo, o valor do alfa de Cronbach para o Autocriticismo foi de 0,93.

Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21)

A EADS-21, desenvolvida por Lovibond e Lovibond, (1995) e adaptada para a versão portuguesa por Pais-Ribeiro et al. (2004), foi utilizada neste estudo para avaliar exclusivamente a sintomatologia ansiosa e depressiva, pelo que foram apenas aplicadas as subescalas de ansiedade e depressão. A subescala de ansiedade compõe-se de sete itens (e.g., “Senti-me quase a entrar em pânico”), assim como a subescala de depressão (e.g., “Senti que a vida não tinha sentido”). Cada item é avaliado numa escala de resposta de tipo Likert de quatro pontos, variando de não se aplicou nada a mim (0) a aplicou-se a mim a maior parte das vezes (3), considerando a última semana como referencial temporal. A pontuação total para cada subescala varia entre 0 e 21, com pontuações mais elevadas a serem indicadoras de níveis mais elevados de sintomatologia depressiva ou ansiosa. A versão portuguesa da escala revelou fiabilidade, com valores de alfa de Cronbach de 0,85 para a subescala da sintomatologia depressiva, de 0,74 para a sintomatologia ansiosa (Pais-Ribeiro et al., 2004). No presente estudo, os valores de alfa de Cronbach foram de 0,86 para a sintomatologia ansiosa e 0,93 para a sintomatologia depressiva.

Procedimentos Analíticos

A análise estatística dos dados foi efetuada utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 27.0. Para a caracterização da amostra, relativamente às variáveis demográficas e clínicas, foram calculadas estatísticas descritivas. Estas incluíram o cálculo de médias e desvios padrão para as variáveis contínuas, e frequências e percentagens para variáveis categoriais. Seguidamente, a consistência interna das (sub)escalas foi avaliada através do coeficiente alfa de Cronbach.

Para explorar as relações entre as variáveis, realizaram-se análises de correlação de Pearson, adotando-se os critérios de Cohen (1988) para interpretar as magnitudes das correlações: valores até r = 0,29 são considerados fracos, entre r = 0,30 e 0,49 moderados, e r = 0,50 são consideradas fortes.

Antes de testar o modelo de mediação, exploraram-se potenciais covariáveis que pudessem influenciar os resultados. Para tal, realizou-se uma análise multivariada de variância (MANOVA), considerando a sintomatologia ansiosa e depressiva como variáveis dependentes, enquanto variáveis sociodemográficas, incluindo o acompanhamento psicológico (com vs. sem), foram consideradas como covariáveis.

Para testar o modelo de mediação, aplicou-se o teste de efeitos indiretos proposto por Preacher e Hayes (2012), utilizando a macro Process de Preacher e Hayes, Versão 4. Os efeitos foram analisados pelo método Bootstrapping com os intervalos de confiança de 95%. Um efeito foi considerado estatisticamente significativo quando o intervalo de confiança não incluiu o valor zero (Hayes, 2012). O primeiro modelo incorporou o stress específico da infertilidade como variável independente, a sintomatologia depressiva como variável dependente, e o autocriticismo como variável mediadora. O segundo modelo seguiu uma estrutura semelhante, com o stress específico da infertilidade novamente servindo como variável independente e a sintomatologia ansiosa como a variável dependente, mantendo o autocriticismo como o mediador. Em ambos os modelos, o acompanhamento psicológico foi integrado como uma covariável, após ter sido identificado um efeito multivariado significativo nas variáveis dependentes.

Resultados

Na Tabela 2 encontram-se as correlações de Pearson entre as variáveis do estudo. Como se pode observar, a sintomatologia depressiva correlacionou-se positiva e fortemente com o stress específico da infertilidade, e positiva e moderadamente com o autocriticismo. Quanto à sintomatologia ansiosa, encontrou-se uma correlação positiva e moderada com o stress específico da infertilidade, e uma correlação positiva e moderada com o autocriticismo. Além disso, observou-se uma correlação positiva, embora fraca, entre o stress específico da infertilidade e o autocriticismo. A idade não se correlacionou de forma estatisticamente significativa com nenhuma variável em estudo.

Tabela 2

Estatísticas Descritivas e Correlações para as Variáveis em Estudo

VariáveisMDP12345
1. Idade34,084,39
2. Sintomatologia depressiva0,650,66-0,13
3. Sintomatologia ansiosa0,840,77-0,090,67**
4. Stress específico da infertilidade2,300,580,040,56**0,34**
5. Autocriticismo4,340,80-0,010,48**0,40**0,29**

Nota. *p < 0,05. **p < 0,01.

A MANOVA revelou um efeito multivariado significativo do acompanhamento psicológico na sintomatologia ansiosa e depressiva, com um traço de Pillai = 0,069, F(2,127) = 4,71, p < 0,01, η2 = 0,069. Os participantes em acompanhamento psicológico apresentaram níveis mais elevados de sintomatologia ansiosa (M = 6,38; DP = 5,02) e depressiva (M = 7,38; DP = 5,27), em comparação com aqueles sem acompanhamento, quer na sintomatologia ansiosa (M = 3,76; DP = 4,19) quer na depressiva (M = 5,27; DP = 4,99).

Consequentemente, o acompanhamento psicológico foi introduzido como covariável nos modelos de mediação. Com base nas análises preliminares, procedeu-se à testagem do primeiro modelo de mediação, conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1. Modelo de Mediação do Efeito do Stress Específico da Infertilidade na Sintomatologia Depressiva, através do Autocriticismo

Modelo de mediação com stress de infertilidade, autocriticismo e sintomatologia depressiva.
Nota. O coeficiente fora dos parênteses indica o efeito total do stress específico da infertilidade sobre a sintomatologia depressiva. O coeficiente entre parênteses representa o efeito direto, controlando pela variável mediadora. **p < 0,01. ***p < 0,001.

Verificou-se uma associação significativa e positiva entre os níveis de stress específico da infertilidade e o autocriticismo (b = 0,38, SE = 0,12; p < 0,01), explicando 9,9% da variância do autocriticismo, F(2,127) = 7,01, p < 0,01 (Figura 1). O autocriticismo, por sua vez, mostrou uma relação significativa e positiva com a sintomatologia depressiva (b = 0,32, SE = 0,07, p < 0,001), contribuindo, em conjunto com o stress específico da infertilidade e após ajuste para o acompanhamento psicológico, para 43% da variância observada nos níveis de sintomatologia depressiva, F(3, 126) = 31,52, p < 0,001. O stress específico da infertilidade apresentou um efeito direto significativo na sintomatologia depressiva (b = 0,60, SE = 0,09, p < 0,001), bem como um efeito indireto significativo através do autocriticismo (SE = 0,05; IC95% [0,0326, 0,2306]).

Figura 2. Modelo de Mediação do Efeito do Stress Específico da Infertilidade na Sintomatologia Ansiosa, através do Autocriticismo

Modelo de mediação com stress de infertilidade, autocriticismo e sintomatologia ansiosa.
Nota. O coeficiente apresentado fora dos parênteses indica o efeito total do stress específico da infertilidade na sintomatologia ansiosa. O valor entre parênteses reflete o efeito direto, após considerar o papel mediador da variável autocriticismo. **p < 0,01. ***p < 0,001.

O modelo de mediação ilustrado na Figura 2, o autocriticismo exerceu um efeito positivo e significativo na sintomatologia ansiosa (b = 0,24, SE = 0,06, p < 0,01), explicando juntamente com o stress específico da infertilidade e após ajuste para o acompanhamento psicológico, 25% da variância da sintomatologia ansiosa F(3, 126) = 14,19, p < 0,001. O stress específico da infertilidade apresentou um efeito direto significativo (b = 0,27, SE = 0,09, p < 0,01) na sintomatologia ansiosa e um efeito indireto significativo através do autocriticismo (SE = 0,36; IC95% [0,0194, 0,1564]).

Discussão

O presente estudo teve um carácter inovador tratando-se do primeiro estudo a explorar o papel mediador do autocriticismo na relação entre o stress específico da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva, controlando o efeito do acompanhamento psicológico.

À semelhança de outros estudos (Galhardo et al., 2013; Zurlo et al., 2019), verificou-se uma associação entre o stress específico da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva. O stress resultante da infertilidade pode ser traduzido em preocupações a nível pessoal, conjugal e social, sendo que estas potencializando a sintomatologia depressiva (Newton et al., 1999), principalmente em mulheres (Awtani et al., 2017; Bose et al., 2021; Casu et al., 2019; Holley et al., 2015; Newton et al., 1999).

Pensamentos de impotência/derrota e emoções como a culpa, raiva e vergonha (Ramezanzadeh et al., 2004), juntamente com o impacto na relação conjugal e sexual (Vizheh et al., 2015) e a tendência para o isolamento dos pares e familiares, parecem estar relacionados com a sintomatologia ansiosa e depressiva em mulheres. Estratégias de coping de evitamento, apesar de procurarem evitar situações dolorosas, estão associadas a maiores níveis de stress e ansiedade em mulheres (Schmidt et al., 2005b), revelando-se muitas vezes disfuncionais a longo prazo. O recurso frequente a tratamentos médicos pelas participantes pode também esclarecer os resultados observados.

O diagnóstico e as técnicas de PMA representam fontes adicionais de stress (Domar, 2004; McQuillan et al., 2003), principalmente no sexo feminino (Gradvohl et al., 2013). Apesar da possibilidade de gravidez, os desafios dos tratamentos diários e a incerteza dos resultados podem ser extremamente desafiadores. Para além disso, casais que recorrem a técnicas de PMA apresentam níveis superiores de sintomatologia ansiosa e depressiva quando comparados com casais férteis ou com casais que optam pela adoção (Galhardo et al., 2011b).

A relação entre o stress específico da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva, também pode ser explicada pelo autocriticismo, o que poderá ser um indicador importante de como as mulheres desenvolvem psicopatologia. Na infertilidade, o impacto do diagnóstico pode exacerbar os níveis de stress a vários níveis (e.g., conjugal, social, pessoal). Esse aumento do stress pode levar à adoção de estratégias de regulação disfuncionais, como o autocriticismo. Esta tendência para a autocrítica pode, consequentemente, dificultar a adaptação ao contexto de infertilidade e agravar o sofrimento psicológico. A infertilidade, sendo uma situação indutora de stress, pode incitar o desenvolvimento de um diálogo interno excessivamente crítico, levando os indivíduos a adotarem posturas mais duras, rudes e julgadoras em relação a si mesmos (Galhardo et al., 2020).

Complementando esta perspetiva, diversos estudos tanto em amostras comunitárias (Castilho et al., 2010; Halamová et al., 2018) como em amostras clínicas (Galhardo et al., 2013) corroboram a relação entre altos níveis de autocriticismo e o aumento da sintomatologia ansiosa e depressiva. Exemplificando, situações comuns como estar em contacto com amigos ou familiares que têm filhos podem desencadear sentimentos de inadequação e aversão a si mesmo, reforçando o discurso interno crítico. Estas atitudes autocríticas, expressas em pensamentos como “eu não valho nada”, “sou uma falhada” ou “odeio-me”, podem ser cruciais no desenvolvimento de stress e sintomatologia ansiosa e depressiva. Estes pensamentos negativos, ao serem internalizados, contribuem para a identificação com estados emocionais negativos, reforçando o ciclo de sofrimento psicológico associado à infertilidade.

Além disso, estes resultados podem ser influenciados por fatores culturais e de género. A pressão social relacionada ao papel da maternidade pode levar a atitudes mais autocríticas entre as mulheres, que tendem a percecionarem-se de forma mais negativa em comparação com os homens (Galhardo et al., 2011b). Esta pressão, muitas vezes disseminada desde cedo, coloca a maternidade como um aspeto central da identidade feminina. Consequentemente, a infertilidade pode desencadear sentimentos de incompetência, falha e autocriticismo intensos nas mulheres (Deka & Sarma, 2010). Este cenário é corroborado por estudos que mostram níveis mais elevados de stress específicos da infertilidade em mulheres, em comparação com os seus cônjuges (Awtani et al., 2017; Bose et al., 2021; Casu et al., 2019; Holley et al., 2015; Newton et al., 1999).

Limitações

O presente estudo apresenta algumas limitações metodológicas que terão de ser acauteladas na interpretação e generalização dos resultados.

Primeiramente, a natureza transversal do estudo limita a capacidade de estabelecer relações causais entre as variáveis e de acompanhar eventuais mudanças ao longo do tempo. Estudos longitudinais futuros são necessários para compreender melhor a causalidade e a evolução destas relações.

Em segundo lugar, a utilização de questionários de autorresposta, administrados exclusivamente online, pode introduzir vieses, tais como a tendência de desejabilidade social ou limitações na compreensão das perguntas.

Terceiro, o método de amostragem não probabilística, com recrutamento através do Instagram e do Facebook, pode não refletir a diversidade da população em geral, restringindo a generalização dos resultados.

Quarto, a amostra composta apenas por mulheres não permite explorar as experiências dos homens na infertilidade. Estudos, como o de Harlow et al. (2020), destacam a sub-representação masculina em pesquisas de fertilidade, o que pode ser atribuído à perceção de que a infertilidade é predominantemente um problema feminino (Grace et al., 2019) e aos desafios enfrentados pelos homens em discutir questões de fertilidade devido a preocupações com a masculinidade. Embora a literatura aponte mais sintomas psicopatológicos nas mulheres (Awtani et al., 2017; Bose et al., 2021; Casu et al., 2019), seria importante considerar o impacto psicológico da infertilidade em homens e em casais para uma compreensão mais abrangente do fenómeno.

Quinto, apesar de a escala de avaliação do autocriticismo ter demonstrado uma fiabilidade aceitável, a falta de um item no questionário exige uma interpretação cautelosa dos resultados.

Sexto, outras variáveis não exploradas neste estudo, como a inflexibilidade psicológica e a vergonha (Cardoso et al., 2021; Cunha et al., 2016), podem também explicar a relação entre o stress específico da infertilidade e a sintomatologia ansiosa e depressiva.

Por fim, fatores clínicos adicionais, como o uso de gâmetas doados, não foram considerados no estudo e poderiam contribuir para variações nos níveis de sintomatologia ansiosa e depressiva.

Conclusão

Em conclusão, os achados deste estudo oferecem contribuições valiosas para a prática clínica no âmbito da infertilidade. O estudo sublinha a relevância do autocriticismo no desenvolvimento de sintomas ansiosos e depressivos neste âmbito. Em contrapartida, a autocompaixão tem emergido como um fator protetor significativo, mitigando o impacto do stress e da psicopatologia (Farinati et al., 2006; Galhardo et al., 2013). Assim, terapias focadas na compaixão podem ser particularmente benéficas para indivíduos inférteis, visto que, tem vindo a evidenciar efeitos positivos em diversas condições como ansiedade, depressão, stress, vergonha e autocriticismo (Galhardo et al., 2013). No contexto específico da infertilidade, a promoção da autocompaixão tem sido associada a uma melhor regulação emocional e à diminuição de emoções negativas, promovendo o bem-estar de mulheres com diagnóstico de infertilidade (Afshani et al., 2019; Njogu et al., 2023; Qasemi et al., 2022). A prática da autocompaixão, como antídoto ao autocriticismo, favorece o desenvolvimento de recursos cognitivos mais adaptativos, onde pensamentos e sentimentos são abordados com clareza e cuidado, facilitando uma autorregulação emocional mais eficaz. Portanto, intervenções baseadas na terapia focada na compaixão podem ser extremamente benéficas junto de pessoas diagnosticadas com infertilidade (Cunha et al., 2016).

Agradecimentos e Autoria

Agradecimentos: Os autores não indicaram quaisquer agradecimentos.

Conflito de Interesses: Os autores não indicaram quaisquer conflitos de interesse.

Fontes de financiamento: Este estudo não recebeu qualquer financiamento específico.

Declaração de Contributos de Autoria CRediT: MA: Conceptualização; Metodologia; Investigação; Recursos; Redação – Rascunho Original; Gestão de Projeto; SS: Redação – Revisão e Edição; Visualização; Supervisão; Gestão de Projeto. JP: Conceptualização; Revisão e Edição; Visualização; Supervisão.

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